Há uma zona cinzenta perigosa na segurança pública brasileira: o espaço em que grupos armados assumem o papel que deveria ser do Estado. Nascidas muitas vezes com o discurso da proteção, as milícias revelam rapidamente sua outra face, a da extorsão. Este artigo analisa como a ausência estatal cria um mercado informal de ordem e por que ele representa uma das ameaças mais silenciosas à democracia.
A dimensão do problema é concreta e mensurável. Segundo o Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzido pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF (GENI) e pelo Instituto Fogo Cruzado, cerca de 4 milhões de pessoas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro vivem sob controle ou influência de grupos armados. Entre 2007 e 2024, as milícias tiveram o maior crescimento de todos: ampliaram em 315% as áreas sob controle direto.
A origem das milícias como suposta resposta à insegurança
A milícia costuma surgir com uma narrativa sedutora: onde o Estado falha, ela promete proteção. Esse discurso encontra terreno fértil em regiões abandonadas, onde o medo é cotidiano e a presença institucional é escassa.
O problema é que essa proteção nunca é gratuita nem neutra. Ela cria dependência e, com ela, um poder que passa a se sustentar exatamente sobre a insegurança que dizia combater. Não à toa, os pesquisadores associam a grande expansão das milícias entre 2016 e 2020 justamente ao período de falência fiscal do estado, desmonte das UPPs e vácuo institucional.
A linha tênue entre proteção e extorsão
O que começa como proteção rapidamente se converte em cobrança compulsória. A taxa de segurança vira extorsão; a proteção vira imposição. A fronteira entre defender e explorar é tênue e, no caso das milícias, é sistematicamente ultrapassada.
Essa ambiguidade é o que torna o fenômeno difícil de combater: para parte da população, o grupo é, ao mesmo tempo, ameaça e única fonte de ordem disponível. Os dados revelam o custo dessa dependência: nas áreas controladas por grupos armados da região metropolitana, a renda média per capita é de R$ 1.121, contra R$ 1.658 nas áreas livres. Na capital, o contraste é ainda maior.
O mercado informal da segurança e da ordem
As milícias operam um verdadeiro mercado: vendem segurança, controlam serviços, cobram por transporte, gás, internet. Elas mercantilizam a ordem, transformando o que deveria ser direito público em produto sob monopólio armado.
Esse mercado informal preenche o vácuo deixado pelo Estado e, uma vez instalado, resiste ferozmente a qualquer tentativa de reocupação institucional, porque ali há lucro. É a mesma lógica empresarial que analisamos em como as facções operam como empresas do crime, agora aplicada à venda de proteção. Tanto que, quando as milícias recuaram após operações recentes, as facções do tráfico avançaram imediatamente sobre os pontos deixados, disputando o mesmo mercado.
Cooptação política e captura institucional
As milícias raramente se limitam ao território. Elas buscam influência política, porque a proteção do poder público garante sua sobrevivência. Financiamento de campanhas, controle de votos e captura de agentes são etapas dessa expansão.
Essa conexão não é apenas percebida; é documentada. Estudos acadêmicos com dados eleitorais e geoespaciais mostram que a entrada de milícias em novos territórios aumenta a concentração de votos e favorece candidatos ligados a esses grupos, capital eleitoral depois convertido em nomeações que protegem suas atividades e garantem impunidade. É nesse ponto que o fenômeno deixa de ser apenas de segurança e passa a ser de democracia: quando a ordem armada compra influência institucional, a própria representação política é contaminada.
Por que as milícias são uma face silenciosa da guerra assimétrica
Diferente do confronto explícito, as milícias avançam pelo controle cotidiano e pela captura silenciosa. Não declaram guerra: ocupam o vazio e se legitimam pela necessidade. É a expressão perfeita da guerra assimétrica, aquela que não se anuncia, mas se instala.
Compreender esse mecanismo é essencial para enxergar como o poder paralelo se sofistica, tema que Guerra Assimétrica examina em profundidade. O domínio armado, mostram os pesquisadores, não é uma anomalia isolada, mas parte do modo de funcionamento da cidade, que reforça desigualdades de renda e raça: nos territórios dominados, a proporção de moradores não brancos chega a 69,1%.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre milícia e facção?
A facção atua predominantemente no mercado ilícito e no confronto pelo território; a milícia se apresenta como provedora de “ordem” e segurança, mercantilizando serviços e buscando legitimidade e influência política. Na prática, ambas exercem controle territorial armado, mas por lógicas distintas.
Por que as milícias são consideradas uma ameaça à democracia?
Porque, além de controlar territórios pela força, elas buscam capturar o poder público, financiando campanhas, controlando votos e cooptando agentes, contaminando a representação política. Estudos com dados eleitorais confirmam que a presença de milícias aumenta a concentração de votos em candidatos ligados a esses grupos.
Como a ausência do Estado favorece as milícias?
Onde falta presença institucional, segurança e serviços, cria-se um vácuo que a milícia ocupa, oferecendo uma “proteção” que rapidamente se converte em extorsão e dependência. A maior expansão das milícias no Rio coincidiu com o período de crise fiscal e desmonte das políticas de segurança.
Quantas pessoas vivem sob domínio de grupos armados no Rio?
Segundo o Mapa Histórico dos Grupos Armados (GENI/UFF e Fogo Cruzado), cerca de 4 milhões de pessoas na Região Metropolitana do Rio vivem sob controle ou influência de grupos armados, incluindo milícias, Comando Vermelho e Terceiro Comando Puro.
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Leia Guerra Assimétrica para compreender essa engrenagem do poder paralelo e o papel das milícias na disputa pelo Estado.